Pois bem, isso
não é unanimidade no mundo todo. Em alguns lugares da Alemanha, por exemplo, a política da boa
vizinhança é quase unanimidade e é extremamente bem organizada (
alemães são organizados em tudo!), rola até uma "bolsa" de ajudas!
O tema surgiu em uma das minhas aulas de
alemão por lá. Sempre tem aquele texto
didático pra interpretar depois, e o da vez eram os "círculos de troca", ou em
alemão, "
Tauschringe" (existe também uma sigla em inglês, a LETS - Local Exchange Trading System). Algumas cidades
alemãs têm uma forte
tradição em círculos de troca. Essa
reportagem, por exemplo, fala do exemplo de
Hannover, onde funciona um círculo de troca bem organizado, com 250 integrantes. Na abertura da reportagem, a jornalista cita que o desemprego
afeta mais de 4
milhões de
alemães, que procuram meios alternativos para seguirem suas vidas sem gastar muito dinheiro, oferecendo o que podem e conseguindo favores em troca. Em
Hannover, é tudo
contabilizado para
não acontecer de uma pessoa sempre pedir favores e nunca oferecer nada em troca. A
diferença é que a conta
não é em dinheiro, e sim em "talentos", o "dinheiro" do sistema de trocas. No exemplo da reportagem, a mulher que trabalha com informática e tem como
hobby a jardinagem, vai receber 15 talentos por uma hora de jardinagem no jardim da outra senhora. Tudo anotado e
contabilizado em uma espécie de conta. Depois, a jardineira das horas vagas pode pedir uma hora de favores para outra pessoa, gastando assim os seus talentos acumulados.
As duas citam a vantagem
não apenas financeira da troca, mas também a possibilidade de ser útil e retomar a política da boa
vizinhança, além da possibilidade de conhecer novas pessoas e fazer amizades. Em
Hannover, o pessoal do
Tauschring realiza também, periodicamente ,os chamados "
Flohmarkts", ou os mercados de pulgas, sobre os quais eu já escrevi
aqui. Mas, nesse caso, o pagamento
não é feito em dinheiro, e sim nos chamados "talentos". Tudo é pago com os "talentos" acumulados nos
serviços prestados. Como se fosse uma economia paralela, sem o dinheiro comum.
Todo tipo de trabalho pode ser oferecido: conserto de bicicletas, aulas de línguas, de música,
reforço escolar, passar roupas, limpar casa, cozinhar, cuidar do cachorro, ser babá, lavar vasilhas, praticar
esportes em conjunto, ajudar a organizar o guarda roupa, etc. Isso faz com que pessoas de todas as idades e classes sociais, que tenham algum tempo para se dedicarem, possam participar. Na reportagem, uma senhora oferece até massagem, enquanto duas adolescentes passam roupas.
Fato é que todo mundo tem algo pra oferecer, e por isso essa troca é possível. Talvez o que falte é tempo, já que vivemos sobre a
prerrogativa do "tempo é dinheiro". Na Alemanha, ao menos nas pequenas cidades, percebi que o tempo dedicado ao trabalho é menor do que aqui. Os
supermercados fecham aos domingos e funcionam até às 8 da noite de segunda à sábado, por exemplo. Os escritórios
começam a funcionar, em geral, mais tarde do que aqui (por volta das 8:30, 9 horas) e às 17hrs
estão praticamente todos fechados. A
impressão que eu tinha é que os
alemães são mais concentrados e levam menos tempo no trabalho para render o mesmo que rendemos aqui. Talvez por isso eles tenham mais tempo livre também, e se dedicam a
atividades como essa.
Eu achei a ideia muita
bacana, prática e totalmente viável. Isso pode ser feito inicialmente no seu próprio ciclo de amizades mesmo. Por exemplo, eu posso dar aulas de
alemão ou inglês em troca de aulas de
violão, que sempre quis aprender.
A
invenção não é
alemã, afinal, antes do dinheiro tudo funcionava desse jeito, mas é interessante observar como esses círculos de troca
são institui coes organizadas e realmente
ativas por lá. Mais um bom exemplo que podemos aprender com eles.
E você, tem algum talento a oferecer?