sexta-feira, 2 de julho de 2010

Minha Copa só tem Tor

Com quatro anos de atraso, assisto à Copa do Mundo 2010 em terras germânicas. Se estivéssemos em 2006, quando a Alemanha sediou o Mundial, haveria uma (grande) vantagem nisso. Mas errei de continente. Ironicamente, tinha tentado primeiro um intercâmbio na África do Sul, mas não rolou. E assim acompanho a Copa do Mundo em Eichstätt, cidade que fica a pouco mais de cem quilômetros de Munique.
No início decidi apoiar os ‘Brüders’ alemães, na esperança de vêlos alegres, menos sisudos e mais simpáticos. Não é trairagem. O apoio seria apenas até a chegada da final entre Brasil e Alemanha e a seleção canarinha seria hexa em cima deles. Eu iria ver a cara de decepção deles ao vivo. É sadismo.
Saí de casa 1h30 antes do início da partida de estréia, Alemanha x Austrália na esperança de achar um barzinho bacana para assistir ao jogo. As ruas estavam estranhamente silenciosas, clima zero de Copa. Até que surgiu a explicação: já estavam todos a postos nos bares da cidade, tanto que havia lugar para mim e para minha amiga finlandesa só quatro tentativas depois.
Mãos no caneco de meio litro de cerveja, olhos no telão e começa o espetáculo. Precisei de dois gols para me acostumar com o fato de que gol, em alemão, é Tor. No terceiro, gritei “tór” com gosto! Mas nada muito prolongado. Ninguém por aqui dá uma de Luciano do Valle e grita por minutos a fio, nem mesmo os narradores. O “tór” é curto e grosso. “Tór”. No quarto gol, só bati palma. Foi bem estranho ver o Cacau, brasileiro, fazer gol na Copa representando outro time.
Fim do jogo, 4 a 0 para a Alemanha, fomos todos para a praça central. Eis que, para minha surpresa, multiplicavam-se os carros, vuvuzelas nas cores da bandeira alemã, buzinas, pessoas sentadas na janela dos automóveis ou,no caso dos não raros conversíveis, em pé. “Olê, olê. Deutsch-laaaand, Deutsch-laaaand!” Os pedestres se abraçavam e cantavam. Finalmente senti o clima de Copa no ar. E senti também uma sensação estranha: pela primeira vez, quando o Brasil ganhasse os jogos da Copa (e claro que ganharia ao menos um), eu sairia na rua e seria como se nada tivesse acontecido. Engoli em seco.
Dois dias depois o Brasil estreou contra a Coreia do Norte. Num repente de esperteza, tratei de reservar uma mesa. A garçonete disse que, por ser jogo do Brasil, não era necessário fazer reserva. Como assim? O que essas pessoas têm de mais importante para fazer do que assistir ao único país pentacampeão do mundo? Demonstrei minha indignação apenas com insistência: gostaria de fazer a reserva assim mesmo. Dez lugares: eu e mais dois brasileiros, um alemão que morou no Brasil, alemãs que estudam português e alguns amigos alemães curiosos para ver como se comporta a torcida brasileira.
No bar, pergunto pela mesa reservada. Lá está ela, posicionada bem em frente à TV. Lá estão ela e várias outras mesas vazias. Disparate, pensei. Nem sentamos nela. Havia espaço de sobra em frente ao telão do Biergarten, ou “jardim da cerveja”, área aberta do bar, uma espécie de jardim dos fundos, muito comum nos bares daqui. É que alemão, no verão, não dispensa uma cervejinha ao ar livre.
Um amigo se divertiu com o fato de que, a cada chance de gol, eu e os demais brasileiros nos levantávamos e curvávamos o corpo em direção ao telão, com os braços esticados gritando “vai, vai”. Os alemães só levantam (quando levantam) depois do Tor feito. Na comemoração dos gols do Brasil, eles riram do grito de goooool estendido. Alguns não souberam reagir direito quando eu, na empolgação, lhes dei aquele abraço.
Mas sofrimento mesmo eles presenciaram quando a Coreia do Norte fez gol. É que os alemães do local comemoraram (e muito) o gol norte-coreano.
E, assim, a Alemanha começou a perder uma simpatizante. Claro que, por medo de ter o Brasil como adversário, eles torcem contra. Faz sentido. Mas decidi: não vibro mais a cada Tor alemão. Fim de jogo, Brasil vence e, como previsto, nas ruas é como se nada tivesse acontecido. Por favor, na próxima vitória do Brasil, sambem, comam feijoada, se abracem forte e vão às ruas comemorar com o dobro de vontade habitual: o façam por mim e por todos os brasileiros que acompanham a Copa longe do Brasil ou da África do Sul.
Não vi a reação dos alemães ao perderem para a Sérvia, porque estava na Espanha. Depois de ganharem de Gana, os alemães começaram a acreditar na possibilidade de ganhar a Copa. E apareceram em maior número no jogo Brasil x Portugal e, de novo, torceram contra. Alguns o fizeram, claramente, para provocar.
Não sou a única sádica. A saga continuou nas oitavas de final. Assisti ao jogo Alemanha x Inglaterra com dois italianos, que de tanto terem sido zoados estavam torcendo contra a Alemanha. De uma forma menos assumida, eu fazia o mesmo. Me peguei revoltada com o gol não dado para a Inglaterra. Não gritei Tor. Bati palma só para não receber olhares tortos dos alemães. Dessa vez, os alemães gritaram e pularam mais. E ficaram mudos quando a Inglaterra fez o primeiro gol. Nem uma palavra de baixo calão, nem um tapa na mesa. Nadinha. Só silêncio. Aí a Alemanha bailou em cima da Inglaterra e rolou, novamente, toda a comemoração e toda a minha saudade de ver isso tudo nas cores verde e amarela.
Meu objetivo inicial de torcer para uma final entre canarinhos e germânicos já está sendo reavaliado. Os Brüders estão jogando perigosamente bem. Vai que eles ganham e eu sou obrigada a ver e ouvir a festa e ainda aguentar o sadismo alheio? Na dúvida, a partir de agora, Copa fora do Brasil, só se for no país-sede. Meu Brasil,não arredo o pé daí em 2014.

*Texto publicado no caderno especial da Copa do Mundo no Jornal O Popular, edicao do dia 30/06/2010

domingo, 6 de junho de 2010

O charme das pequena

Pouco conhecida dos roteiros tradicionais de intercâmbios, a tranquila Eichstätt, cidade alemã que tem pouco menos de 14 mil habitantes, é boa opção para estudantes que procuram estudo aliado a diversão e turismo

Marktplatz, Eichstätt

A maioria dos estudantes que têm a oportunidade de fazer um intercâmbio acadêmico opta por capitais ou cidades mundialmente famosas. Contrariando o movimento, saí de Goiânia e fui fazer intercâmbio em uma cidadezinha no Sudeste da Alemanha, no interior do Estado da Baviera. Eichstätt (lê-se ‘aichtêt’) fica entre as cidades de Munique, capital estadual famosa pela Oktoberfest e pelo moderníssimo estádio de futebol Allianz Arena, e Nuremberg, uma das cidades mais importantes da região. O trajeto do aeroporto de Munique até meu destino final foi feito pelo meio de transporte público mais comum no país, o trem, e em uma hora e meia eu chegava ao município de aproximadamente 13.900 habitantes, dos quais quase 5 mil são estudantes da Universidade Católica de Eichstätt, Ingolstadt, conveniada com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e outras universidades brasileiras.
Localizada em um vale, Eichstätt está dentro do território do maior parque natural alemão, o Altmühltal, o que justifica a perceptível pureza do ar. No meio do caminho, entre a pequena estação de trem e a praça principal da cidade, a Marktplatz, corre lento o rio Altmühl, um dos vários afluentes do Danúbio. Já na Marktplatz, nota-se a enorme quantidade de ciclistas, exemplarmente respeitados pelos motoristas dos poucos carros em trânsito. Não há arranha-céus, os picos são apenas os das montanhas que cercam a cidade ou das torres das igrejas católicas, religião de maioria absoluta em todo o Estado. As casas são, no geral, sobrados coloridos, o que faz a cidade parecer cenográfica. Com seus 1.100 anos de existência, Eichstätt testemunhou momentos históricos como guerras mundiais, conflitos e, em destaque, a caça às bruxas promovida pela Igreja Católica na Idade Média – muitas mulheres consideradas feiticeiras foram afogadas no rio Altmühl.

Gaiola usada para afogar bruxas na Idade Média

Na arquitetura e nas placas ilustrativas espalhadas nos seus 48km² de área, é possível viajar no tempo. Como em toda a Europa, a quantidade de pessoas idosas, em um primeiro momento, salta aos nossos olhares latinos.


Atrativos
Uma cidade assim pode não parecer muito atrativa para a badalação da vida universitária. Mas é. Não é à toa que todos os semestres em média 60 estudantes estrangeiros, vindos de todos os continentes, se juntam aos demais universitários alemães e desembarcam na cidade. Grande parte divide o aluguel de casas ou reside em moradias estudantis, onde pagam aluguéis até 50% mais baratos dos que os de uma capital. No meu primeiro semestre por aqui, morei com um alemão, uma francesa e uma belga, o que é, principalmente por causa das diferenças culturais, uma experiência divertida e curiosa. A vida noturna de Eichstätt é movimentada principalmente pelo grande número de estudantes. A cidade tem uma boate que funciona todas as sextas, sábados e vésperas de feriado, um espaço na Universidade a disposição para a realização de festas, e o Theke, um bar com extensa área, também subsidiado pela Universidade. Mas o destino noturno da maioria são as “WG parties”, festas que acontecem nas próprias casas dos estudantes. O esquenta para as festas é geralmente feito em um dos vários barzinhos e restaurantes da cidade.Voltar pra casa depois de uma noitada? A pé ou de bicicleta, tanto faz se acompanhado ou sozinho. Além da praticidade de tudo ser perto, Eichstätt tem um dos menores índices de violência da Alemanha.
Para os que gostam de programas mais tranquilos, a cultura também tem seu espaço, seja no cinema, no teatro ou nas galerias de arte e museus. Nas proximidades da cidade existe um parque arqueológico, de onde foi retirada parte dos fósseis expostos no Jura Museum, um museu localizado no alto do castelo da cidade, de onde a vista é espetacular. Com bastante área verde e pistas de corrida em toda a extensão do rio Altmühl, Eichstätt é propícia à prática de esportes ao ar livre ou mesmo simples caminhadas ou piqueniques. No verão, é comum ver estudantes deitados na grama, tomando sol e estudando. “Além da segurança, em uma cidade pequena é mais fácil conhecer melhor os habitantes e se integrar à cultura local. Como não há muita gente, os estudantes são mais unidos em suas atividades e festas e ajudam mais uns aos outros”, defende a belga Sandrina Dens, que deixou Bruxelas por 5 meses para estudar Comunicação em Eichstätt.
Como estudante da área de Humanas da UFG, Eichstätt era a única opção de Gustavo Carvalho para um intercâmbio acadêmico. Gostou tanto que estendeu o período de um ano por mais um semestre. Já de volta a Goiânia, ele relembra as facilidades e os pontos positivos da experiência. “Hoje, depois do intercâmbio concluído, eu optaria por uma cidade pequena como ela. As facilidades como transporte, que gera economia de tempo e dinheiro, por poder ser feito a pé ou de bicicleta, e o baixo custo de vida em relação a capitais valem a pena.” Para ele, uma parte importante do intercâmbio é a possibilidade de conhecer pessoas e criar novas amizades. “Em Eichstätt foi fácil conhecer os estudantes nativos, os demais estrangeiros e até mesmo os não estudantes. A gente vivia trombando com conhecidos na rua, o que era muito bacana. O que mais sinto falta é a incrível internacionalidade que Eichstätt tem, mesmo sendo pequena, devido à crescente quantidade de estudantes estrangeiros, trabalhadores imigrantes e até turistas. É uma cidade aconchegante mas com uma grande multiplicidade, criada pela alteração da rotina que a vida universitária traz.”
Nos finais de semana e feriados, no entanto, o movimento é realmente pequeno. É que muitos estudantes voltam para a casa dos pais em outras cidades. Mas isso não é problema. Os estrangeiros podem aproveitar para conhecer outras regiões. “As linhas intermunicipais e regionais de trem são muito bem desenvolvidas, passando inclusive nos menores municípios. Como as distâncias na Europa não são muito grandes, dá pra viajar bastante no tempo livre. Quando as opções de Eichstätt cansam, basta pegarmos um trem e em minutos estamos em uma cidade maior, como Ingolstadt, Munique ou Nuremberg”, explica a gaúcha Helena Gertz, estudante de Comunicação.
Se engana, no entanto, quem acredita que intercâmbio acadêmico se resume a festas e viagens. A carga de estudos pode ser pesada, principalmente se for em um país de língua diferente. Se o estudante ainda optar por conciliar com um trabalho, o tempo se torna ainda mais escasso. O sossego e a praticidade de uma cidade assim podem se tornar vantagens ainda maiores. “Durante a semana, se temos muito o que estudar, no período de provas, por exemplo, encontramos o sossego necessário pra isso”, completa Helena.
Para quem morou a vida inteira em uma cidade grande e movimentada, como eu, uma experiência assim pode surpreender. O risco é apenas um: problemas de readaptação ao caos da capital goianiense na hora de ir embora.

*Texto publicado no Diário da Manha no dia 1° de Junho de 2010 - Editoria DM Revista

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O outro lado das coisas

Uma conversa em um bar. Uma brasileira (1), um alemao (2) e uma francesa (3).*

(1) - O que vêm à cabeca de vocês quando se fala sobre o Brasil? Podem ser sinceros.
(2) - Praia, sol, calor e pessoas felizes.
(3) - E futebol também. E carnaval. Natureza... E praia. É, acho que a primeira coisa é praia..
(1) - Ahm.. e de coisas negativas?
(2) - Desigualdade social.
(3) - Violência.
(1) - Na escola, o que vocês aprendem sobre o Brasil?
(2) - Que ele fica na América Latina e foi colônia de Portugal. Nao muito mais que isso.
(3) - É, a localizacao geográfica, e fato de ser um dos maiores países do mundo em extensao e também a questao ecômica. Aprendemos que o Brasil é um país emergente. O Brasil tem sido destaque nos noticiários da Franca por causa da política externa do Lula, das relacoes com o Sarkozy e tal.
(2) - Ahm.. aqui na Alemanha nao se fala tanto no Brasil assim..
(1) - Alguma coisa sobre o comportamento sexual dos brasileiros?
(2) - Acho que brasileiros sao mais diretos e menos discretos.
(3) - Ahm.. nao tenho opiniao sobre isso.
(1) - A impressao que a gente tem é de que o pessoal da Europa enxerga as brasileiras como mulheres fáceis. Vocês pensam assim?
(2) - A gente sabe que a questao da prostituicao existe no Brasil, e, como eu disse, que as pessoas sao mais diretas e indiscretas em relacao a sexo, mas nao pensamos que as brasileiras sao todas prostitutas ou mulheres fáceis.
(3) - As pessoas no Brasil pensam que os europeus pensam isso de vocês? Bom, eu nunca ouvi nada do tipo. E o que os brasileiros pensam sobre a Franca?
(1) - O clichezao é: francês é erudito, chique (às vezes meio fresco e metido), os queijos fedem e o jeito de falar soa, pra nós, um pouco 'gay'. - Podia falar que têm fama de nao tomar banho, e de fato nao tomam muito mesmo, mas acho que já peguei pesado o suficiente.
(3) - Sério essa coisa do gay?
(1) - Sério. Mas é porque vocês fazem biquinho, e a gente nao tem isso no Português...
(2) - Desculpa, mas a gente aqui na Alemanha também tem essa impressao...
(3) - E você nunca me disse nada?
(2) - Nós nao falamos as coisas assim abertamente, como os brasileiros, haha
(1) - Desculpa gente!
(3) - Nao nao, tudo bem, é porque eu realmente nao sabia disso... Nao acho que a gente faca biquinho pra falar.
(2) - Repara. Vocês fazem.
(1) - Sim, vocês fazem!
(3) - E sobre o comportamento sexual francês?
(2) - Ixee.. dos europeus do ocidente, sao os mais sensuais e sexuais.
(1) - Nao tenho opiniao sobre, mas dos filmes franceses que assiti, me deu a impressao que francesas sao muito intensas quando apaixonadas, o que pode explicar essa coisa de sensual e sexual...
(3) - Concordo que somos sensuais, e acho que tem a ver com a língua francesa. 'A língua dos apaixonados'
(1) - ?
(2) - É, existe esse ditado sim. Mas e sobre a Alemanha? O que falam sobre a Alemanha?
(1) - A primeira coisa que vem à cabeca, infelizmente, é o nazismo. É basicamente o que a gente aprende na escola sobre a história alema. 2a Guerra e tal. E a esmagadora maioria dos filmes alemaes que chegam aos cinemas brasileiros tratam justamente do assunto.
(3) - Como a Franca foi adversária direta da Alemanha na Guerra, pra nós também é muito difícil dissociar Alemanha e nazismo. É automático.
(2) - Isso é triste.. tem mais alguma coisa além disso?
(1) - Bom, pela diferenca no tom da fala e pela disseminacao dos filmes alemaes sobre Nazismo, a gente tende a achar que vocês falam brigando. Porque nos filmes o Hitler usa o tom de discurso, de comando. Quando eu disse pras pessoas que estava estudando alemao, muitos disseram que nao me viam falando essa língua porque eu falo baixinho. Como falar baixinho em alemao? Os brasileiros acham, no geral, que vocês falam bravos e em um tom alto. E, talvez por isso, acham também que vocês sao, no geral, antipáticos e nao muito amigáveis. Mas é que a gente, no Brasil, é que é amigável demais também.
(3) - Como o francês é bem suave, a gente acha que o alemao soa rude. E nós achamos também que alemaes sao um pouco rudes. E bastante reservados.
(2) - Putz, alguma coisa positiva sobre a Alemanha? Afinal, vocês duas estao aqui né..
(3) - Na Franca, a gente admira muito a capacidade de reconstrucao de vocês. Afinal, o país estava um caco depois da Guerra, foi dividido, passou pela Guerra Fria, e hoje, depois de tudo isso, ainda é uma potência. Nós admiramos os esforcos alemaes e a uniao do povo alemao.
(1) - Como o Brasil fica fora da Europa e a nossa história nao está tao intimamente ligada como no caso Franca / Alemanha, o que de positivo a gente enxerga na Alemanha sao, por exemplo, as iniciativas pró meio ambiente. A gente tem a impressao de que a Alemanha, em comparacao com o Brasil, é um país ecologicamente correto. E tem também a impressao que as pessoas sao bastante sérias (às vezes até demais, porque brasileiros nao sao tao sérios assim), mas isso é bom, porque dá impressao que, no trabalho, vocês sao bastante eficientes.
(2) - Ah, pelo menos alguma coisa salva. Hehe. Mas essa coisa do nazismo é triste. É algo que a gente sempre vai tentar se desvincular e acho que nunca vamos conseguir. E sempre, de alguma forma, vamos pagar o pato pelo o que as geracoes anteriores fizeram. Por exemplo, eu tenho muita vontade de conhecer Israel, mas ser alemao e ir pra Israel é pedir pra ser insultado. Mesmo que eu nao tenha nada com o que aconteceu. É uma heranca ingrata que geracoes e mais geracoes vao ter que carregar. E um pouco da nossa tristeza, discricao e seriedade aparente é fruto disso: a gente sabe que nao somos o povo mais querido do mundo. E isso é um peso muito grande no ombro de todos da minha geracao.
(3) - Mas a gente nao acreditou em todos esses clichês, e a gente sabe que nao sao todos os alemaes que sao nazistas, e que nao dá pra culpar todas as futuras geracoes de alemaes pelo que aconteceu...
(1) - Nem mesmo a geracao que viveu o Nazismo. A gente sabe que tinha muita gente contra o sistema, que muitos protegeram Judeus, que muito alemao deu a vida por achar injusto o regime nazista
(2) - Vocês sabem disso porque estao aqui. Porque estao tendo a oportunidade de olhar o outro lado das coisas também, mas esse outro lado das coisas nunca é divulgado pra grande massa. Nao fazem um filme sobre os alemaes de Berlim que esconderam judeus nos poroes de casa para protegê-los, por exemplo. Fazem filmes em que eles falam 'os alemaes estao matando judeus', e nao eram os alemaes, eram ALGUNS alemaes, eram nazistas. Quando fui à Nicarágua, quando souberam que eu era alemao, me perguntaram logo de cara se eu era nazista. Parece que muita gente no mundo ainda vê como sinônimos alemao e nazista.
(1) - Infelizmente ainda é assim sim. Assim como vêem Brasil como sinônimo de festa e praia.
(3) - E a Franca como sinônimo de gente fresca, metida.
(2) - Espero poder ir um dia a Israel.
(1) - ...
(3) - ...

*baseado em uma conversa real.

Nao há melhor jeito de conhecer 'o outro lado' das coisas do que indo lá olhar.

domingo, 9 de maio de 2010

Flohmarkt

Tradicao em toda a Alemanha, o Flohmarkt acaba de ganhar mais uma adepta.
Em um domingo ensolarado depois de uma semana chuvosa, resolvi conhecer o tal do Flohmarkt, que acontece aqui em Eichstätt mensalmente. Eu nunca tinha ido antes porque geralmente a feira rola aos domingos pela manha. Domingo de manha praticamente nao existe pra mim. Desde que eu me entendo por gente vivi poucos domingos pela manha. Estou, em quase todos eles, dormindo. Mas hoje o evento ia até as 15 hrs. Uma amiga da República Tcheca sugeriu que fôssemos 12:30, depois da missa à qual ela iria. Ok, acordar 11:30 nao seria tao difícil assim. E nao foi.
Encontrei a amiga Tcheca, o professor de inglês norte americano e as amigas francesas. Fomos entao para o Flohmarkt, no espaco de festas populares da cidade, o Volksfestplatz.
Floh significa pulga. Markt é mercado. E lá fui eu, pela primeira vez, a um legítimo mercado de pulgas. Levei 10 euros, pra garantir que nao iria gastar mais do que podia. A fama (e a tentacao) dos Flohmarkt's é grande por aqui...
Cheguei no local e lembrei um pouco da feira da Lua de Goiânia, mas em proporcao bem menor, claro.

Uma das barraquinhas da feira

Vista geral de uma parte do Flohmarkt

As barraquinhas se organizavam todas em volta da praca, viradas para o lado de dentro. Também nao tinha aquele amontoado tenebroso de gente típico da Praca Tamandaré aos sábados. Além dessas diferencas, havia também o detalhe de que 90% do que era vendido ali eram coisas usadas - de roupas a documentos legítimos pertencentes a pessoas que viveram no período das 1a e 2a Guerras Mundiais.
A primeira barraquinha ostentava uma arara abarrotada de roupas penduradas em cabides. 0,50€ cada peca. Nunca fui de comprar roupa usada, mas sempre ganho roupas das minhas primas mais velhas (isso que dá ser a cacula da família por 12 anos..). Nao tenho nenhuma frescura quanto a isso. Fui dar uma garimpada ali e achei muita coisa bizarra, como jaquetas com ombreiras, calcas jeans com corte de 1990 e vestidos de vó. Mas também achei uma saia que ia até o joelho, chadrez preta e branca, com um cinto preto na altura da cintura. Pensei na possibilidade de tirar dela alguns centímetros no comprimento. Gostei do que imaginei, mas era a primeira barraquinha, entao nao levei. 'Vou dar uma volta primeiro', pensei, seguindo a lógica que sigo quando vou à Feira da Lua.
Na mesma barraquinha haviam sapatinhos de bebê feitos em croché, lencos de amarrar no pescoco (comprei um de vaquinha muito bacana), coisas de prender o cabelo, tudo por 50 cents!!

Primeira aquisicao: um lenco de vaquinha

Algumas barraquinhas à frente a quantidade de roupas foi diminuindo e as surpresas surgiram. Jogos de tabuleiro antigos - garantimos todas as pecas. Caixas de Lego a 1€. Pilhas de discos de vinil, dos grandes e dos menorzinhos. Fitas cassete, revistas antigas, livros. Um deles sobre a Copa do Mundo de 1974, quando a Alemanha foi sede e ganhou o campeonato - na época, ainda era Alemanha Ocidental. Uma das revistas eram quadrinhos do Pato Donalds, que em alemao se chama Duck Donald. Máquinas fotográficas analógicas, filmadora portátil de fabricacao japonesa (10€) dos anos 60 - é o que explicou a simpática senhorinha que nao se incomodou com meu pedido de tirar uma foto da relíquia.

Filmadora japonesa dos anos 60

Jóias, relógios e buttons antigos. Telefones daqueles de colocar o dedo e rodar para discar. Na máquina de escrever alaranjada, um papel datilografado dizia 'eu custo 15€'.

Máquina de escrever, 15€

Uma mini Jukebox ao lado de uma guitarra e um radinho de 'mano' dos anos 80.

Mini Jukebox linda!

Uma das barracas vendia papéis. Me aproximei pra ver do que se tratava. Eram os tais documentos oficiais da época das Guerras Mundiais. A maioria era da 2a Guerra. Documentos de identidade, de admissao no exército, atestados de óbito. Havia também o tao famoso Persilschein, documento emitido após a queda do Nazismo, dado aos cidadaos alemaes que conseguissem, através da resposta de questionários e apresentacao de testemunhas, comprovar que nao tiveram qualquer tipo de relacao com o Nazismo ou alguma de suas inúmeras instituicoes. Nao perguntei, mas fiquei imaginando de onde aquela mulher que aparentava uns 40 e poucos anos tinha tirado todos aqueles papéis oficiais tao raros. Além disso, cartas trocadas entre soldados e suas famílias, cartoes postais, fotos originais dos locais atingidos pela guerra. Uma aula de história recente alema em uma banquinha de feira. Teve também 'aula' de cultura alema contemporânea. Ora ora, estamos na Baviera. Quase todas as barraquinhas vendiam canecoes de beber cerveja, sem ou com tampa de metal (que é pra cerveja ficar gelada por mais tempo). Comprei um pro meu paizao por 5€, com os motivos da bandeira da Baviera (azul e branca) e o nome de uma cervejaria de Munique.


Videogames antigos (procurei um Atari e nao achei), bicicletas, patins.
Uma barraquinha vendia as roupas tradicionais da Baviera, praticamente uniformes para a Oktoberfest: os Dirndls para as mulheres e as Lederhosen para os homens.

Dirndl



Ledenhose, um charme, nao?

Normalmente um Dirndl custa 100€! Ali as pecas eram novas, e custavam 27€. Se eu tivesse o dinheiro em maos, compraria na hora! Mas a dona da barraquinha, que infelizmente nao mora em Eichstätt, me prometeu: volta no mês que vem!
Para comer, nada de empadoes, pamonhas, churrasquinhos. Um carrinho de sorvete estilo McDonalds e o queridinho de todas as feiras na Baviera: pao francês (que aqui chama Semmel e tem formato de gota) com salsichas grelhadas dentro. Nham.
Depois da volta completa, resolvi voltar na banca da minha saia xadrez. Aí eu aprendi a licao dos Flohmarkts: gostou, comprou. Alguma alemazinha feliz levou a saia que eu tanto queria e eu fiquei na mao. Na verdade, de revolta, comprei uma blusa de 1€. Mas a vontade de ter a saia, ainda assim, nao passou. Meus amigos compraram livros, bicicletas, CD's do REM e jaquetas estilo Michael Jackson.
Em resumo, a experiência foi um tanto curiosa e muito boa. Altamente recomendável. Só nao leve dinheiro de menos (como eu), ou dinheiro demais, porque a vontade que dá é de comprar a feira inteira, até as coisas mais inúteis, como o girassol de pelúcia que um amigo japonês comprou por 1€.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tem alguém que você ama e que está morando por um tempo em outra cidade/país/continente? Ou até do outro lado do Atlântico?
Se a pessoa mora em uma cidade grande, provavelmente existem meios de, via internet, em inglês, encomendar presentes e flores e mandar pra essa pessoa em datas especiais. Mas às vezes a pessoa nem precisa morar em uma cidade grande. O mercado anda tao atento à demanda que até em uma cidadezinha de 15 mil habitantes nos confins da Baviera alema isso já é possível.
E isso eu descobri hoje, da melhor maneira: na prática!


Só falta eu descobrir como tirar o sorriso bobo da cara antes de ter dores nas bochechas. E nao seria nada mau também descobrir como me teletransportar nesse exato momento pro Brasil. É, a saudade faz parte... mas as ótimas surpresas também!
Em um intercâmbio a gente faz amigos, se habitua a uma nova vida, nova cultura, novas comidas, novos programas, nova língua, novas maneiras de agir, abre a cabeca pra novas formas de pensar... mas nem tudo muda. A sua história, o seu passado e as pessoas que você ama mas deixou no seu país vêm, de um jeito ou de outro, com você também. E você pensa nelas muito mais do que pensava que pensaria. Com certeza.
Isso tudo, em alemao, se chama Heimat.

Ps: porque hoje é dia 7.